Preciso confessar: já me tem cansado o uso do tal gentílico gaudério. Não é a primeira vez que expresso meu descontentamento com rótulos ao...
Preciso
confessar: já me tem cansado o uso do tal gentílico gaudério. Não é a
primeira vez que expresso meu descontentamento com rótulos ao se tratar
de arte e principalmente de música. Rótulo, para mim, tem que estar em
produto alimentício, remédio, detergente de louça... Rótulo serve para
prevenir, informar, esclarecer. Música precisa de emoção e de liberdade
para sentir.
Há poucos dias, reli um texto em que o escritor Tabajara Ruas, com muita propriedade, falava sobre o talento e a obra de Jayme Caetano Braun. Quem não conheceu o pajador enquanto vivo, sua genialidade do improviso, pode ainda deleitar-se com os registros de seus versos em décima tratando desde temas políticos e questões sociais, passando pelo amor pela "china". E, sim, descrevendo um Rio Grande romântico de galpões e fogo de chão que só quem ama sua querência, suas raízes, pode escrever. (Assim fez também Jorge Amado – e isso não é uma comparação – ao falar do mar e das paisagens da sua Bahia). Jayme foi um poeta gaudério. E só isso?
Para quem se dedica à arte e tem como tema o Rio Grande do Sul, cumprir tal tarefa não é nada fácil. Muitas vezes, a gente se encontra numa espécie de buraco negro: o que eu canto não é música brasileira, o mercado artístico no qual trabalho está restrito à região sul, pois fora daqui "não entendem o que eu canto". E aí a gente canta no Rio Grande do Sul, e muitos dos gaúchos não conhecem os artistas que aqui trabalham e justificam tal "ignorância" com a frase: "Ah, eu não participo de CTG ou não participo desse mundo gaudério".
Fico intrigada com o fato de ser artista de um Estado que não tem bem certeza de qual é sua própria regionalidade; que a subdivide, que não a conhece, que não a reconhece. É mais fácil ficar nesse lugar de "Ah, eu não sei, não conheço", sentar na frente da TV e criticar o programa que recebe gente do samba, do sertanejo, do funk.
Você se sente ofendido? Você se sente excluído? Acha que aquela cultura não o representa? Então está na hora de descobrir com o que você se identifica, sair da zona de conforto, informar-se. Sentar na frente da TV com o controle na mão e só mudar de canal não será suficiente. Você pode descobrir, aprender, respeitar.
E entender que música é música e que tem gente a seu lado cantando coisas com as quais você pode se identificar e pasme: se emocionar!
Fonte: Coluna Pampianas junto ao jornal Zero Hora
Há poucos dias, reli um texto em que o escritor Tabajara Ruas, com muita propriedade, falava sobre o talento e a obra de Jayme Caetano Braun. Quem não conheceu o pajador enquanto vivo, sua genialidade do improviso, pode ainda deleitar-se com os registros de seus versos em décima tratando desde temas políticos e questões sociais, passando pelo amor pela "china". E, sim, descrevendo um Rio Grande romântico de galpões e fogo de chão que só quem ama sua querência, suas raízes, pode escrever. (Assim fez também Jorge Amado – e isso não é uma comparação – ao falar do mar e das paisagens da sua Bahia). Jayme foi um poeta gaudério. E só isso?
Para quem se dedica à arte e tem como tema o Rio Grande do Sul, cumprir tal tarefa não é nada fácil. Muitas vezes, a gente se encontra numa espécie de buraco negro: o que eu canto não é música brasileira, o mercado artístico no qual trabalho está restrito à região sul, pois fora daqui "não entendem o que eu canto". E aí a gente canta no Rio Grande do Sul, e muitos dos gaúchos não conhecem os artistas que aqui trabalham e justificam tal "ignorância" com a frase: "Ah, eu não participo de CTG ou não participo desse mundo gaudério".
Fico intrigada com o fato de ser artista de um Estado que não tem bem certeza de qual é sua própria regionalidade; que a subdivide, que não a conhece, que não a reconhece. É mais fácil ficar nesse lugar de "Ah, eu não sei, não conheço", sentar na frente da TV e criticar o programa que recebe gente do samba, do sertanejo, do funk.
Você se sente ofendido? Você se sente excluído? Acha que aquela cultura não o representa? Então está na hora de descobrir com o que você se identifica, sair da zona de conforto, informar-se. Sentar na frente da TV com o controle na mão e só mudar de canal não será suficiente. Você pode descobrir, aprender, respeitar.
E entender que música é música e que tem gente a seu lado cantando coisas com as quais você pode se identificar e pasme: se emocionar!
Fonte: Coluna Pampianas junto ao jornal Zero Hora
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